#20 Otimismo aprendido: o que você conta a si mesmo depois de errar

1. O que você conta a si mesmo depois de errar

Decidir mal sob pressão costuma receber toda a atenção, o erro de avaliação, a pressa, a âncora que se instala cedo demais e distorce tudo o que vem depois. Mas decidir mal é só metade da história. A outra metade começa depois. Quando a decisão já foi tomada, o resultado já apareceu, e resta a pergunta mais silenciosa de todas: o que você faz com o erro, uma vez que ele já aconteceu?

Parece óbvia demais para merecer atenção. Erro, aprende, segue em frente, diria o senso comum. Só que décadas em posições de liderança mostram outra coisa. A maioria dos executivos não trata o próprio erro de forma neutra, trata como prova de alguma coisa, boa ou ruim, sobre quem é como profissional, como líder, às vezes até como pessoa. É essa camada de significado, quase sempre automática, que decide se o erro vira aprendizado ou vira ferida que nunca cicatriza direito.

A resposta não é emocional apenas. É estrutural. Existe uma forma de ler um revés que abre caminho para aprendizado, e existe uma forma que fecha esse caminho antes mesmo de ele começar, e a diferença entre as duas raramente está no tamanho do erro. Está na história que a pessoa, ou a organização, conta a si mesma sobre o que aquele erro significa. Dois executivos cometem exatamente o mesmo deslize. Mesmas consequências, mesmo contexto. Seis meses depois, um está estagnado, repetindo o mesmo padrão defensivo; o outro está mais afiado, tendo extraído do episódio uma lição que o fortaleceu.

A diferença não estava no erro. Estava na leitura.

2. Como você lê a crise

Diante de um revés, três perguntas quase sempre aparecem. Raramente em palavras, quase nunca como pergunta consciente, mas como uma sensação que se instala antes de qualquer racionalização.

Isso vai passar, ou isso é permanente? Isso ficou contido naquele episódio, ou contaminou tudo ao redor? Isso diz algo sobre as circunstâncias, ou prova alguma coisa ruim sobre quem eu sou?

Vale olhar para cada uma separadamente, porque na prática elas raramente aparecem isoladas. A primeira, permanência, decide se o executivo trata o revés como algo que o tempo e a ação resolvem, ou como uma mancha definitiva. Um projeto que falhou pode ser lido como “esse projeto não deu certo”. Ou como “eu não sirvo para liderar projetos complexos”. A segunda frase generaliza no tempo o que a primeira mantém contido num episódio específico.

A segunda pergunta, abrangência, decide se o problema fica isolado onde de fato aconteceu, ou se vaza para todas as outras áreas. Um atrito sério com um cliente pode virar “esse cliente está insatisfeito com essa entrega”. Ou pode virar “não sei lidar com clientes”, generalização que contamina relações que nunca tiveram problema nenhum.

A terceira pergunta, personalização, decide se o revés é atribuído a fatores que incluem o contexto, o momento, as escolhas de outras pessoas envolvidas, ou se é internalizado inteiramente como falha pessoal, mesmo quando a responsabilidade era, na melhor das hipóteses, compartilhada.

Tratar o erro como permanente, generalizado e revelador de uma falha profunda produz paralisia disfarçada de responsabilidade, como se sofrer mais fosse prova de seriedade. É só sofrimento, e sofrimento intenso raramente melhora a qualidade da próxima decisão; na maioria das vezes piora, porque consome energia cognitiva que deveria estar disponível para agir.

Já encarar o mesmo erro como pontual, contido e circunstancial exige outra coisa, a disposição de olhar para o que de fato aconteceu sem inflar suas proporções, e a maioria dos erros realmente é pontual, contida e circunstancial. O problema é que, sob pressão, a mente escolhe a versão mais dramática, como se admitir que o erro foi menor do que a dor sugere fosse uma forma de se eximir da responsabilidade.

3. Otimismo aprendido não é papo positivo

Existe um nome para essa dinâmica. Cunhado décadas atrás pelo psicólogo Martin Seligman, que resistiu durante anos à própria palavra otimismo, com medo de ser confundido com discurso motivacional raso.

A trajetória dele até chegar lá é reveladora, porque começou estudando exatamente o oposto, o fenômeno que ficou conhecido como desamparo aprendido: submetidos repetidamente a situações adversas sobre as quais não têm controle, seres humanos e animais param de tentar reagir, mesmo quando, mais tarde, o controle volta a existir. A pessoa aprende que agir não adianta, e essa aprendizagem persiste mesmo depois que as condições mudam.

Foram as exceções que mudaram o rumo da pesquisa. Indivíduos que, submetidos às mesmas adversidades, simplesmente não desenvolviam esse desamparo. Foi observando essas exceções que Seligman chegou ao conceito de estilo explicativo, o padrão que cada pessoa usa, quase sempre sem perceber, para explicar por que as coisas boas e ruins acontecem.

Esse padrão se organiza em três dimensões, permanência, abrangência e personalização, exatamente as três perguntas da seção anterior. E a forma como alguém responde a essas três perguntas, de maneira consistente ao longo do tempo, prediz com razoável precisão como essa pessoa vai atravessar as adversidades da vida profissional e pessoal.

Otimismo aprendido tem pouco a ver com pensar positivo ou com negar que algo deu errado.

O que ele exige é rigor. A pessoa com estilo explicativo mais saudável não nega o erro, recusa exagerar seu alcance, reconhece o que deu errado sem transformar isso em sentença permanente sobre o próprio caráter ou sobre o futuro inteiro. É disciplina de avaliação, não disposição de ânimo. Talvez seja essa a razão pela qual o próprio Seligman evitava o termo no início da carreira: otimismo, na cultura popular, já vinha carregado de outro significado, mais próximo de negação alegre do que de rigor interpretativo.

Vale marcar uma distinção que costuma escapar quando esse conceito circula de forma simplificada. Otimismo aprendido não funciona como altura ou tipo sanguíneo, um traço fixo que a pessoa tem ou não tem. Funciona como um padrão de avaliação que pode ser observado, questionado e, com prática deliberada, revisado.

Um executivo que hoje generaliza excessivamente cada revés não está condenado a fazer isso para sempre. Mas a mudança não acontece por decreto, decidir “vou ser mais otimista amanhã” tem pouco efeito prático. Acontece pela repetição de um exercício simples e nada confortável: perceber a interpretação automática quando ela aparece, e perguntar, com genuína disposição de encontrar uma resposta diferente, se aquela interpretação é realmente a mais fiel aos fatos disponíveis.

4. Anos para reconstruir o que uma interpretação abalou

Vivi essa dinâmica numa escala institucional, no BNDES, num episódio que levou anos para se resolver de verdade. Ainda hoje uso como referência interna sobre o que significa lidar bem com uma crise de percepção.

Órgãos de controle solicitaram que o banco abrisse as condições de determinadas operações de crédito, para fins de auditoria. A questão chegou a um comitê gerencial, e ali já havia divergência real dentro da própria instituição. Parte dos executivos, sobretudo na área ligada à cultura organizacional, entendia que fazia sentido abrir, que a transparência com órgãos de controle era compatível com a missão do banco.

A área jurídica discordava, com interpretação técnica e mais restritiva da legislação, sustentando que o sigilo bancário previsto na Constituição impedia essa abertura, inclusive para órgãos de controle.

De nenhum dos dois lados havia má-fé. Era uma diferença legítima de avaliação, a tensão entre o rigor técnico de uma área especializada e a sensibilidade política de outra, ambas tentando proteger a instituição, cada uma a partir do seu instrumental próprio.

O debate escalou.

Os órgãos de controle recorreram ao Supremo Tribunal Federal, e um dos ministros decidiu, monocraticamente, que não havia sigilo bancário oponível a órgãos de controle, ampliando a interpretação da lei além do entendimento mais literal que a área jurídica do banco havia adotado.

O efeito imediato foi uma crise de percepção séria. Pouco importava, para a opinião pública nem para os próprios órgãos de controle, que o banco jamais tivesse se fechado a auditorias, historicamente sempre auditável e auditado. O que ficou foi a impressão oposta: que a instituição tinha resistido a abrir suas operações, que havia algo a esconder.

Faltou, naquele momento inicial, uma avaliação mais política de como uma posição juridicamente defensável seria interpretada do lado de fora, o tipo de sensibilidade que talvez tivesse sugerido um caminho negocial anterior à escalada até o Supremo.

O que vale contar aqui não é o momento da crise. É o que veio depois.

Diante da crise instalada, a instituição poderia ter escolhido qualquer uma das três leituras mais destrutivas. Poderia ter tratado o episódio como permanente, essa desconfiança nunca vai passar. Poderia ter tratado como abrangente, deixando que a desconfiança em torno de uma exigência específica contaminasse toda a relação institucional com controle e fiscalização, inclusive em frentes onde a colaboração sempre tinha sido boa. Poderia ter internalizado a crise como prova de uma falha de caráter coletivo.

Não foi esse o caminho.

Levou anos de trabalho deliberado para reconstruir a relação: aproximação sistemática com os órgãos de controle, disposição para ouvir críticas duras sem se fechar em postura defensiva, decisões concretas que foram muito além do mínimo necessário para encerrar o desconforto imediato.

Radicalidade, não meias medidas. Hoje todos os contratos do banco estão disponíveis publicamente na internet, política de transparência que vai além do que a maioria das instituições financeiras do país pratica, e o Tribunal de Contas da União já reconheceu o BNDES como uma das instituições mais abertas do Brasil.

A rigidez inicial não foi revertida por um pedido de desculpas nem por uma nota de esclarecimento. Foi revertida por anos de transparência concreta, sustentada além do tempo em que qualquer crise costuma continuar interessante para quem está de fora observando.

5. O limite entre ler bem e se enganar bem

Vale um cuidado aqui.

Otimismo aprendido tem um parente perigoso, a negação disfarçada de resiliência, e a linha entre os dois nem sempre é fácil de enxergar de dentro da própria situação. Ler um erro como pontual e contido só tem valor se essa leitura for verdadeira. Se não for, deixa de ser precisão e vira forma mais sofisticada de fugir do problema, adiando um ajuste necessário sob a aparência tranquilizadora de estar “seguindo em frente”.

O BNDES não minimizou a crise com os órgãos de controle, nem tentou convencer ninguém, interna ou externamente, de que nada grave tinha acontecido. Reconheceu o impacto real da situação, admitiu a existência de um problema de percepção que precisava ser endereçado com seriedade, e trabalhou anos para reverter essa percepção com fatos, não com discurso.

Essa é a diferença que separa otimismo aprendido de autoengano. Um teste simples, embora nada confortável de aplicar: a leitura otimista muda o comportamento de quem a adota. O autoengano evita examinar qualquer coisa que pudesse forçar essa mudança.

Otimismo aprendido pergunta o que, daquele episódio, é realmente permanente e generalizado, e o que é circunstancial. Examina a evidência disponível com honestidade, mesmo quando essa evidência é desconfortável, e age de acordo com essa avaliação mais precisa, o que quase sempre implica trabalho real, sustentado, muitas vezes por anos.

Autoengano decide de antemão que está tudo bem e evita examinar a evidência que diria o contrário, trocando o desconforto de olhar de frente para o problema pelo conforto passageiro de uma narrativa que não se sustenta sob pressão.

Um teste prático, útil sobretudo em ambientes de liderança onde a pressão para parecer confiante é constante: quem, na organização, está autorizado a discordar da posição oficial sem sofrer custo por isso?

Onde existe otimismo aprendido de verdade, essa discordância é bem-vinda, porque contribui para afinar o entendimento coletivo. Onde existe autoengano disfarçado de resiliência, essa discordância é tratada como deslealdade. E é justamente esse silenciamento que, com o tempo, transforma uma avaliação imprecisa em crise ainda maior, porque ninguém mais está autorizado a apontar que ela estava errada desde o início.

6. A decisão não termina quando ela é tomada

Decidir sob pressão não termina no momento da escolha.

O erro, grande ou pequeno, já está feito, não pode mais ser desfeito por nenhuma quantidade de arrependimento. É exatamente aí que a decisão continua: na forma como você lê o que essa escolha produziu, e no que você está disposto a reconstruir, com trabalho real e sustentado, a partir dessa leitura.

Talvez a lição mais difícil de aceitar seja esta: nem a melhor interpretação possível de um erro o desfaz. O BNDES levou anos para reconstruir uma confiança abalada, não porque a avaliação que fez do episódio fosse errada, mas porque otimismo aprendido exige tempo, exige disciplina sustentada, mesmo quando aplicado com todo o rigor. A recompensa de ler bem um revés não é que ele deixe de doer ou de exigir trabalho. É que esse trabalho, ao contrário do que a leitura catastrófica produziria, tem para onde ir.

Fica um convite para levar desta newsletter, o mesmo que vale para qualquer executivo revisando um episódio recente da própria trajetória. Volte à última vez que algo deu errado sob sua liderança e observe qual das três dimensões dominou, permanência, abrangência ou culpa pessoal, e se essa avaliação foi examinada com o mesmo rigor que você aplicaria a qualquer outra decisão importante, ou se foi aceita sem questionamento só porque chegou disfarçada de sentimento e não de julgamento.

O que mudaria, na sua liderança e na sua organização, se a escolha tivesse sido deliberadamente pela leitura mais fiel aos fatos, em vez da mais dramática?

Esse mecanismo, a leitura que fazemos de um revés e o que ela custa para reconstruir depois, é um dos fios que percorrem Presença sob Pressão. Aprofundo essas e outras questões no meu livro que já está em pré-venda na editora Brasport:

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Ricardo Ramos

Mentoria Executiva para Líderes e Empreendedores | Experiência em Alta Gestão e Conselhos de Empresas | co-autor do livro A Essência da Influência

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